Ao contrário do mito da pureza ideológica, o fisiologismo de contar prefeitos e distribuir verbas une nomes do PP ao PT, revelando que o sistema não tem lado definido.

A operação da PF que revelou o tamanho do envolvimento do senador Ciro Nogueira com o escândalo do banco Master pôs de novo em circulação um velho cacoete da militância de esquerda, alimentada por outro, da imprensa tradicional, de associar automaticamente o Centrão à direita.
É um estratagema inconsciente de apartar o que seria a parte suja da política, de forma a preservar a pureza — acima do bem e do mal — que se atribuem. Os militantes, por esperteza. Os jornalistas, por vício. Um tanto por preguiça de se aprofundar no quem é de fato o Centrão.
Tal como é percebido e propalado por todos os lados, o Centrão é uma práxis, digamos, de atuação política clientelista e fiológica. Seus parlamentares exploram prestígio e recursos públicos para distribuir verbas e obras em seus redutos eleitorais e votar a favor de qualquer governo da hora para manter essa roda girando.
Seu maior patrimônio eleitoral é o voto do prefeito, dos vereadores e das pequenas e médias cidades, aos quais paparica com verbas e obras públicas, em troca do compromisso de puxarem os votos nas eleições.
Como há milhares de cidades, a conta é feita por cabeça de prefeito. Se um parlamentar tem o apoio de 20 a 30 deles — o que é bem comum entre os eleitos —, tem grande possibilidade de reeleição. Sem, às vezes, no caso de deputados federais, sequer pisar na cidade onde é votado. Faz dobradinha com deputados estaduais, que têm o prefeito, e espera a contagem dos votos.
É um contingente associado com a direita, porque nunca perdeu tempo com ideologia, pauta de costumes ou assembleias de protestos. A não ser quando provocado. Vai dizer que é favor ou contra casamento gay, a favor ou contra banheiro misto, dependendo do palanque, do bar ou da cidade onde estiver pedindo voto.
Mas que é coalhado de deputados da esquerda — principalmente do PT —, originários das lutas urbanas congregando minorias. Avançaram para o interior à medida que cresceram, tomaram o poder em estados e prefeituras com o lulismo e tiveram acesso a recursos para distribuir. Foram também contar prefeitos, ao preço de verbas e obras.
Nas Minas de 856 prefeituras, o PT cresceu vertiginosamente para o interior desde os anos 90. A Bahia, onde o PT ganha eleições estaduais há duas décadas, é celeiro desse tipo de parlamentar, da base à cúpula. Não é coincidência que seus luminares locais, Jacques Vagner e Rui Costa, também estejam envolvidos em denúncias do Master.
Ciro Nogueira, do PP do Piauí, é da parte aliada, dos que não tinham espaço no PT, por divergência ideológica ou conveniências regionais sérias, mas as mesmas afinidades clientelistas. Já foi lulista, dilmista e bolsonarista. Coronéis como Renan Calheiros, do MDB, os Barbalho do Pará ou mesmos os Gomes do Ceará são da mesma estirpe que contam prefeitos no embornal de votos, distribuindo verbas e obras.
O que às vezes confunde — e arrasta os desinformados — é que muitos deles ainda exibem o verniz da conversa ideológica, como um Jacques Wagner ou um Rui Costa, para ficar na Bahia. Embora continuem contando prefeitos.
Operação contra bolsonarista mostra independência de André
Dias Toffoli e Alexandre de Moraes devem estar colocando as barbas — a barba e a careca, vá lá — de molho com o fato de que a primeira grande operação da PF para pegar graúdo envolvido no caso Master tenha chegado a um bolsonarista.
Como o colega relator que autorizou a operação — André Mendonça — foi indicado por Jair Bolsonaro, evaporam-se as maledicências de que ele não iria pegar pesado com gente de casa. O que daria motivo legais e morais para questionar suas decisões
André tem se mostrado tão sério, sereno e centrado, que já rejeitou outros pedidos apressados da PF e — acima dos partidos — ameaça rejeitar a proposta de delação de Daniel Vorcaro, por sinalizar que tenta proteger seus cúmplices.
Aí é que mora o perigo das barbas e carecas em molho. Tudo no ministro — inclusive a generosidade recente com o petista Jorge Messias — tem evocado independência que pode tornar a vida do banqueiro complicada se não colaborar de verdade.
Vai ter que entregar, além dos cúmplices no mundo político, os juízes com os quais se relacionava, aos quais pedia ajuda e dos quais, pelo que parece, ainda espera algum socorro.
Um dia, seu processo sai do controle do relator sereno e cai nas turmas ou no plenário do Supremo, onde poderá reencontrá-los. Problema é o tempo que isso pode levar.
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