Fernando Schuler desenha no Fórum da Liberdade o retrato de uma elite que sequestrou o Estado e trata o cidadão como refém de uma sociedade hierárquica e infantilizada.

Só uma sociedade como a nossa explica que um pequeno empresário de 71 anos seja condenado a 14 anos de prisão por ter doado um Pix, e o ministro da Suprema Corte que o condenou não possa ser investigado mesmo tendo viajado no jatinho de um réu, de quem sua mulher recebeu R$ 80 milhões.
A comparação, formulada pelo cientista político Fernando Schuler, foi o ponto alto e mais longamente aplaudido do painel “O Brasil tem jeito?” do Fórum da Liberdade, que reuniu também neste início de abril, em Porto Alegre, o filósofo Luiz Felipe Pondé e o historiador Jorge Caldeira.
— É como se dissesse: eu não vou ser investigado porque eu não devo nada para vocês — completou Schuler.
Foi a melhor desenho que arranjou para ilustrar sua tese sobre o caráter de uma sociedade hierárquica e profundamente desigual e hipossuficiente, no sentido de refém de uma elite que sequestrou o Estado e usa a maioria como massa de manobra de seus interesses.
É o “estamento” de que falava Raymundo Faoro, lembra. Primeiro, escolhe pelo cidadão: se quer votar (voto obrigatório), se quer fazer poupança (FGTS), se quer negociar suas dívidas (Desenrola Brasil), se pode ver uma peça de teatro de humor (Leo Lins).
Depois, tendo-o feito dependente, distribui censura e benesses. E, distribuindo (bolsas, remédios, casas) feito pai da sociedade que infantilizou, decide a quem dá e de quem tira, aumentando a disparidade — “assimetria”, como diz — que alimenta o círculo.
— É uma sociedade feito fraca de um estado poderoso.
Ele começa sua viagem pela que fez Alexis de Tocqueville no monumental “A Democracia na América”, sobre a origem da sociedade democrática — não hierárquica — dos Estados Unidos, nascida de colonos de direitos e condições iguais.
Depois passa pela Suécia, onde visitou o Parlamento e descobriu que 50 parlamentares tinham apenas 40 assessores, menos de um por cabeça. E desembarca no Brasil, onde só um senador tem mais de 100.
É o reflexo simples e esclarecedor que, resumo, explica onde chegamos, a um governo do tipo Lula e a um Supremo com tipos como Alexandre de Moraes. Que — conclusão também minha — não são os únicos e nem os últimos.
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