Dez anos após o impeachment de Dilma, Cunha ressurge comprando rádios e pregando para evangélicos, tentando faturar o espólio de um bolsonarismo que ele diz ter criado.

Dez anos depois do impeachment de Dilma Rousseff, completados ontem, seu algoz e malvado favorito da maioria da população à época, Eduardo Cunha, está de volta à ribalta.
No palco de Minas Gerais e montado num discurso megalomaníaco de que produziu Bolsonaro e o bolsonarismo, a fim de capitalizar o apoio da direita no estado, moderada e extrema.
— Se eu não tivesse feito o impeachment, não teria existido Bolsonaro presidente da República — disse em entrevista nesta semana a O Tempo, sobre o processo que decidiu abrir como presidente da Câmara dos Deputados naquele 17 de abril de 2015, por “um pretexto” (as pedaladas fiscais), segundo admitiu.
Mas que tinha de fato indiscutível apoio popular e, de fato — não por ele — rachou ao meio de forma definitiva uma sociedade já dividida. Já cheia de rachaduras, num processo de cisão com a retórica do “nós contra eles” alimentada pela esquerda lulopetista e as reações crescentes do Movimento Brasil Livre, que tomou as ruas do PT.
Jair Bolsonaro, que tirou a direita do armário e aprofundou a divisão navegando a alta rejeição a Dilma e o PT, é de fato produto desse movimento. Seu marco inaugural, três anos antes do impeachment, foi a grande passeata do 17 de junho de 2013, amplificada a partir de um inocente protesto contra o aumento de passagens de ônibus.
Mas nada deve a Cunha. Já é história que tomou a decisão solitária de se candidatar a presidente um dia após a proclamação da vitória de Dilma, em novembro de 2014. Inspirado na alta rejeição nacional que ela já inspirava — na saída das urnas — e do clima de falência geral do lulopetismo por obra da operação Lava Jato.
Cunha celebra o marco de dez anos de sua obra para buscar holofote e abrir espaço na direita — a que sempre pertenceu — em meio a seus esforços de cavar espaço político em Minas. No mesmo modelo que consagrou sua trajetória vitoriosa no Rio de Janeiro: comprando rádios, se aproximando do reduto evangélico e distribuindo dinheiro para prefeituras.
Já tinha esboçado o mesmo em São Paulo, onde obteve apenas 5 mil votos na última eleição. Agora, estrangeiro carioca meio desajeitado para o clima das montanhas, comprou emissoras de rádio, onde pastoreia programas de ajuda espiritual, e distribui recursos públicos para prefeituras através das emendas de sua filha Dani Cunha, deputada federal pelo PL do Rio.
Pode não ter produzido Bolsonaro e o bolsonarismo, mas contribuiu muito para esquentar as ruas que os empurraram. E ainda pode contribuir muito com ambos, a seu jeito trator, se conseguir colocar a cabeça pra fora. Como parece que, agora, vai.
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