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O crime-conceito e o inimigo público do Pix de R$ 500

5 de abril de 2026 por Ramiro Batista Deixe um comentário

A história de Alcides Hahn, o empresário condenado a 14 anos por solidariedade, e a crítica de Fernando Schuler à perda de empatia na guerra política.

Ladies and gentlemen, Fernando Schuler. O cientista político e doutor em Filosofia pela UFRGS conta a história do pequeno empresário de 71 anos e descendência alemã de Santa Catarina, para tentar recuperar um pouco de bom senso e empatia perdidos numa sociedade em que só vale a guerra política.

Alcides Hahn fez um pix de R$ 500 para atender a um pedido de uma vaquinha para pagar um ônibus para Brasília, dias antes do 8 de janeiro, apenas por um dever de solidariedade comunitária.

Tomou 14 anos de cadeia de Alexandre de Moraes, pelo que Schuler chama de “crime conceito”, em que não é preciso provar/individualizar nada.

“Nada é mais difícil de refutar do que uma tese absurda”, ele tenta traduzir diante de tanta intolerância misturada a cinismo:

— Para uma parte das pessoas, está tudo ok. 14 anos até é pouco. O certo seria prisão perpétua, ou coisa pior, para essa gente fascista, e ainda mais de Santa Catarina, que passou Pix para financiar o “golpe” naquele domingo ensolarado, em Brasília. Mas isso não é verdade. Dizer isso não passa de um patético cinismo. Ele contribuiu porque alguém pediu, porque era da comunidade e manifestações são legítimas, em uma democracia. Contribuiu porque era seu direito.

Seguem dez das melhores frases:

1. Só um País domesticado, que perdeu completamente o senso republicano, é incapaz de perceber o elemento absurdo em tudo isso.

2. Ele é apenas parte de uma multidão amarrada por um conceito. O crime-conceito.

3. O delito que não precisa de objetividade ou enquadramento a nenhum tipo penal específico. Precisa apenas de uma fundamentação.

4. A gordura parece escorrer de cada uma dessas palavras. E me faz lembrar da frase que um dia escutei de um velho professor: nada é mais difícil de refutar do que uma ideia absurda.

5. Não teve sua conduta individualizada? Irrelevante. Não tinha a intenção de dar golpe nenhum? Irrelevante.

6. Esta zona cinzenta entre o que é legal e o que é meramente político. Ou ainda: entre o que é ‘ilegal’, mas que por efeito de alguma necessidade ou razão de Estado, definida pelo próprio poder, se converte em ‘perfeitamente jurídico e constitucional’.

7. O “estado de exceção”, em que os direitos fundamentais deixam de ser limites claros e passam a oscilar conforme a interpretação e o “gosto” momentâneo de quem detém o poder.

8. O universo dos direitos individuais não mais delimitados pela regra escrita, mas oscilando, ao gosto do poder, sobre camadas opacas de ‘interpretações’ e ‘entendimentos´.

9. O Sr. Hahn é apenas o exemplo bem-acabado de um tipo que criamos, no País dos anos recentes: os brasileiros irrelevantes. Brasileiros sem pedigree, sem história, sem ‘retórica’. E por óbvio, sem poder algum.

10. Pessoas que têm seus direitos claramente violados, mas que desaparecem em meio à guerra política e nossa mais completa falta de empatia. Muitos enxergam seu drama como uma vitória da democracia.

Arquivado em: POLÍTICA

Sobre Ramiro Batista

Sou escritor e jornalista formado em Letras e Literatura, Comunicação e Marketing, experiente em escrever, editar, publicar, engajar e promover pessoas e ideias. Compartilho tudo o que sei sobre o uso de ferramentas de comunicação para conquistar e manter poder.

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