Roteiro vazado aposta na jornada do herói perseguido pelo sistema para fidelizar militantes e consolidar a narrativa conspiratória da facada de 2018 nos cinemas.

A julgar pelo roteiro vazado esta semana, o filme sobre Jair Bolsonaro tem tudo para decepcionar quem gosta de bons filmes políticos baseados em histórias reais, como foi o grande fiasco O Mecanismo, de José Padilha, sobre a Lava Jato. E tudo para agradar a devotos, religiosos e políticos.
É a jornada de um herói em crise, perseguido pelo sistema — ou mecanismo — que é impelido a sair de sua rotina mundana para cumprir uma tarefa sobre humana para salvar o mundo. Enfrenta alguns obstáculos nesse novo mundo mau, até o clímax em que precisa decidir se desiste ou vai em frente, para a tragédia ou o final feliz.
O detetive protagonizado por Selton Mello na série, o candidato a presidente da República vivido pelo ator Jim Caviezel, que não por acaso já fez Jesus Cristo — o protótipo do herói instigado a deixar sua vidinha de marceneiro. Enfrenta todos os obstáculos contra o clero mancomunado com império romano até o ápice em que precisa decidir se continua rezando no deserto ou volta para mudar seu destino e de seu povo.
(Lembra Lula – O Fiho do Brasil, de Fábio Barreto, de 2010, menos decepcionante como filme de história real, mas com o mesmo propósito e sem a mesma competência do roteiro hollywoodiano.)
Não à toa também que o nome bem escolhido é O Azarão (Dark Horse). Jair Bolsonaro é anti-herói sem relevância que cresce ao enfrentar a facada símbolo de toda a conspiração de um sistema perverso que encapsula a esquerda e a imprensa más, obstáculos à sua missão de salvar e levar sua gente ao paraíso.
Tem tudo de um roteiro perfeito para a teoria conspiratória criada pelo bolsonarismo à época, de que o ataque à faca sofrido nas vésperas da eleição de 2018 foi uma conspiração da esquerda (Adélio Bispo aparece como um revolucionário patrocinado por um partido de esquerda, de nome parecido com o Psol), com simpatia de uma jornalista idem.
E para arrastar multidões que não gostam de cinema de verdade, como as que vão mais de uma vez a um filme de Edir Macedo. Ou de Lula, vá lá.
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