Lula celebra fim da jornada 6×1 enquanto bolsonarismo fatura fato político com Trump em Washington. Ambas as forças armam armadilhas nas urnas mirando suas bases.

Quis o destino que Flávio Bolsonaro conseguisse se reunir com Donald Trump e assumisse a paternidade da decisão americana de classificar como terroristas as duas maiores facções do tráfico brasileiro quase ao mesmo tempo em que Lula comemorava a aprovação do fim da escala 6×1 pela Câmara dos Deputados.
Os dois vinham perseguindo há meses esses objetivos distintos para encantar suas respectivas bases e, simultaneamente, armar uma arapuca um para o outro.
Como escrevi no post anterior, a causa da redução da jornada de trabalho está para os interesses de Lula assim como o combate ao crime organizado e à violência urbana está para os de Flávio. Cada um desses assuntos é, respectivamente, eleitoralmente bom para um e ruim para o outro.
A redução da jornada com manutenção do salário é uma oportunidade afinada com a alma do discurso social do lulismo desde a sua gênese, possuindo um apelo eleitoral que fala por si só. Por outro lado, torna-se um complicador para a prosódia liberal de Flávio, alinhada aos interesses de um setor produtivo contrariado.
Já a pauta da segurança pública — que a decisão americana faz brilhar como um neon na propaganda eleitoral do bolsonarista — traz tudo o que a direita sempre defendeu em termos de endurecimento contra a violência urbana, servindo para fustigar o lulismo por seu oposto: uma resistência histórica à repressão que é difícil de defender nas urnas.
Ambos jogaram seus temas preferidos como armadilhas cruzadas. Lula atira no colo do bolsonarismo o que chama de insensibilidade das elites. Flávio devolve com a suposta leniência lulopetista diante da segurança pública que, no discurso mais simplista, vira “defesa de bandidos”.
Flávio deve estar rindo por último, por uma mera questão de cronologia. O fato político criado por ele em Washington ganhou as manchetes um dia após a comemoração lulista da benfeitoria aprovada na Câmara. Isso deve melhorar seus números nas pesquisas, após a queda provocada pelas denúncias de seu envolvimento com Vorcaro. Lula tende a ficar onde está.
Mas o alívio será breve para ambos, e sabe-se lá em que direção o cenário irá se mover. Nessa campanha em estilo montanha-russa, tudo acontece e muda rápido demais.
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