Fora de moda para a nova direita radical e marcado pelo recuo do PSDB nas urnas, o político mineiro busca no Senado uma sobrevida que esbarra em seu próprio DNA tucano.

Aécio Neves está na mesma situação de 2014, quando se lançou candidato para competir com Dilma Rousseff: para ele, sempre foi melhor perder uma eleição nacional do que ganhar uma campanha ao governo de Minas. Hoje, tenta o Senado, mas em condições muito mais difíceis.
Buscava, à época, uma projeção além da província. Algo que fosse bom para ele — que se sentia mais confortável lidando com políticos e jornalistas nos fins de semana no Rio de Janeiro — e que desse capilaridade ao seu PSDB.
A tentativa de reprojeção volta a fazer sentido após o ostracismo provocado pelo grampo em que pedia dinheiro a Joesley Batista — escândalo que o abateu em pleno voo para 2018. Faz sentido também pela possibilidade de tornar relevante outra vez o seu partido, reduzido nas urnas, assim como ele, após o episódio.
O cenário atual é muito favorável para presidentes de partido, que andam mais preocupados em formar grandes bancadas para aumentar sua fatia no milionário fundo eleitoral do que em eleger o presidente da República. Taí Gilberto Kassab, que mal sabe para qual presidenciável torce.
Faz lógica, igualmente, a pretensão de reocupar o espaço que foi do PSDB no antagonismo com o petismo nas décadas anteriores, antes do tropeço em Joesley. E mais ainda num contexto em que a única opção colocada na direita mineira, Flávio Bolsonaro, está avariada, ainda que temporariamente.
O complicado será Aécio se transformar em uma opção viável para a direita, um campo já concorrido por direitistas de fato, como Romeu Zema e Ronaldo Caiado. O mineiro já não é aceito como membro desse grupo. O tempo passou, e mudaram tanto a direita como a percepção sobre ele.
Com a polarização e a cristalização das diferenças de métodos e crenças em relação à esquerda, após o fenômeno Jair Bolsonaro, a direita se radicalizou. Passou a ver o PSDB como um braço light da própria esquerda — uma falsa oposição que, por medo de parecer insensível, defendia as mesmas pautas de Lula, como uma cópia desbotada: MST, Bolsa Família e estatais falidas.
Aécio Neves ficou marcado pelo “Lulécio”, dobradinha eleitoral informal na primeira campanha de Dilma Rousseff no estado, que rifou o candidato oficial do PSDB. Ficou marcado também por ser um governador “da cozinha” do Palácio do Planalto sob Lula, durante sua passagem pelo governo de Minas, entre 2002 e 2010.
Só teve coragem de demarcar publicamente sua diferença com o lulopetismo na reta final da campanha presidencial de 2014. Naquele momento, combater o PT, já desmoralizado pela Operação Lava Jato, tinha virado um excelente ativo eleitoral — do qual se valeu a nova direita, que perdeu o medo de sair às ruas e gerou seu principal efeito colateral, Jair Bolsonaro.
A conversão tardia quase lhe deu a vitória contra Dilma e o projetou como o candidato forte para 2018, não fosse o grampo e, de forma mais profunda, a cristalização do novo conceito de direita: radical contra o excesso de Estado, contra o paternalismo e contra a relativização dos costumes que afrontavam a maioria conservadora.
Esse novo conceito requer espírito de militante e lealdade acima de qualquer suspeita, mais ou menos como a de um Romeu Zema. Algo que não orna com o jeito tucano atávico de Aécio — o “espírito conciliador” de que ele se gaba, mas que o eleitorado enxerga como o velho “em cima do muro”, sempre relativizando uma coisa e o seu contrário.
Aécio está fora de moda, como o “isentão” das redes sociais. Tanto para este novo tempo quanto, principalmente, para esse eleitor de direita, que o vê como centro esquerda, quase linha auxiliar do lulismo. Com o sério risco de ainda compará-lo a Simone Tebet, a adversária que virou amiga de infância de Lula no segundo turno.
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