Sem querer o lulopetismo e sem coragem para o bolsonarismo, o tucano tenta empurrar Ciro à Presidência para garantir um palanque nacional seguro em solo mineiro.

Aécio Neves depende apenas de si mesmo para se lançar candidato ao Senado por Minas Gerais. Prescinde dos apoiadores do lulopetismo que se arrepiam com a ideia de vê-lo no palanque de Rodrigo Pacheco — ainda que ele, Aécio, resista e Lula deseje com o mesmo empenho que dedicou a Simone Tebet para perder por menos em São Paulo.
Ponto alto da escalada que vem empreendendo para restaurar a própria imagem e a do PSDB desde o fatídico grampo de Joesley Batista, em 2017, Aécio agora busca uma muleta para alcançar o próximo nível. Que tem nome e sobrenome: Ciro Gomes. Em uma manobra inteligente, o mineiro tenta convencer o cearense a se lançar novamente à Presidência.
Por quê? Possivelmente porque Aécio carece de um palanque nacional para chamar de seu em solo mineiro.
Aliar-se ao petismo e sair em defesa de Lula parece-lhe um custo biográfico pior do que ser flagrado pedindo dinheiro a empresário. Por outro lado, abraçar o bolsonarismo é um desfecho que não parece disposto a dar à sua trajetória.
Apesar do afeto que nutre pelo petista desde os tempos de troca-troca institucional em que conviveram como governador e presidente da República, por oito anos. entre 2023 e 2010. E a recíproca é verdadeira. Lula também guarda bons momentos de afeto daquela era, quando usou o mineiro para esvaziar o PSDB paulista. Quem não se recorda do “Lulécio”, a emblemática traição à candidatura nacional do tucano José Serra?
Aécio sempre resistiu a atacar o PT, e não apenas pelo perfil de conciliador herdado do avô Tancredo. Só o fez, visivelmente desconfortável, na reta final de 2014, quando o embate com Dilma Rousseff tornou-se inevitável. Na mesma medida, foi fustigado em praça pública por Lula, que não poupou nem o episódio em que Aécio foi flagrado dirigindo sem habilitação no Rio.
Da mesma forma, o mineiro nunca se sentiu à vontade para endossar a direita radical de Jair Bolsonaro, salvo em votações de conveniência no escurinho do Congresso. O resultado da eleição mineira de 2018 teria sido outro se Antônio Anastasia tivesse assumido o apoio a Bolsonaro, ocupando o vácuo que acabou consagrando Romeu Zema.
Muleta ideal, Ciro é o contraponto anti-Lula, intelectual e programático, que adoraria retornar à ribalta para se vingar do processo de fritura imposto pelo petista em 2018 — quando foi preterido por Haddad — e da execração que sofreu do lulopetismo por ter se refugiado em Paris no segundo turno, para não apoiá-lo.
O entrave está no Ceará, onde Ciro lidera uma frente de direita contra o mesmo lulopetismo, com chances reais de vitória. Uma campanha nacional é um terreno movediço, dado seu histórico de largar bem e desidratar no caminho, vítima da própria agressividade congênita.
Ainda assim, perder combatendo o PT pode ser tão proveitoso para sua biografia quanto vencer no Ceará. Parece a união da fome com a vontade de comer. Mas, para Aécio, não deixa de ter o desconforto arriscado de um salto de muleta.
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