Mas suspeito o suficiente para virar pato manco antes da hora

Me lembrei de Cesar Millan, o maior adestrador de cachorros conhecido, sucesso na TV dos EUA, ao ver a entrevista de 47 minutos que Michel Temer deu a Roberto D’Avila em junho de 2016, algumas semanas depois da posse em que substituiu Dilma Rousseff na Presidência.
Eu havia lido sobre ele no grande O que se passa na cabeça dos cachorros e estava interessado no seu “fraseado corporal”. O grande autor do livro, Malcolm Gladwell, recorre à expressão para analisar a linguagem utilizada por comunicadores para dominar plateias como adestradores usam para domar o mais feroz dos cães.
No meu artigo sobre a entrevista e sua relação com Millan e o livro, escrevi que:
Michel Temer tem um jeito de girar um ou os dois indicadores para a frente estruturando um raciocínio e dar voltas ao contrário para contrapor um argumento inverso.
Volta e meia, um deles serve de suporte ao queixo, com apoio do polegar, como que para evitar que o rosto vá junto do olhar, que foge do interlocutor, na busca de outro raciocínio que vai desencadear novos giros, para frente e para trás.
Quando não estão nessa pirueta retórica, entrelaçam-se junto aos outros em concha perto do colo, como que para proteger o baixo ventre de algum argumento mais duro. Ou se esticam para compor com as palmas esticadas o gesto de amém.
Esse tricô de mão dupla parece trair um instinto de abarcar sempre os dois lados de uma questão, uma consciência consolidada pelo tempo de que é preciso sempre buscar o que está faltando. Quando falta, é preciso buscá-lo urgente num olhar lateral que vá trazê-lo em nova pirueta para dentro.
Os especialistas em comunicação do corpo chamam isso de “fraseado corporal”, a combinação da intenção com o gesto, incorporada por treino ou inconsciência, que bem ou mal combinados pode ser a glória ou a desgraça dos comunicadores.
Espécie de acrobata dos dedos com talento involuntário para dançar suave como um mordomo inglês num salão tumultuado, ele parece ter o talento de Cesar Millan para domar cachorros ferozes e indisciplinados na grande briga de rua que chegou para apartear em Brasília.
Com o mesmo respeito para encarar um pitbull como Eduardo Cunha, um buldogue ladino como Renan Calheiros ou uma akita imprevisível como Dilma Rousseff. Sem baixar a guarda para alguns dobermans do STF e um são-bernardo como Rodrigo Janot, enquanto mantém uma distância respeitável de um rotweiller como Sérgio Moro.
E um talento geral para tratar com autoridade e distanciamento a grande matilha do Congresso, num momento em que a sirene da polícia a caminho cria um enorme alvoroço.
Não à toa vem conseguindo aos poucos apascentar o arranca-rabo e aprovar medidas que outro equilibrista não conseguiria nas atuais circunstâncias, como redução de Ministérios, meta fiscal, fim de nomeações políticas em estatais.
Claro que há uma plateia a favor que facilita tudo, mas difícil imaginar um domador com fraseado mais adequado para essa hora.
>>> Ver artigo O fraseado corporal de Temer e o que se passa na cabeça dos cachorros
Carisma de torneira atraiu e comandou manada
Com seu jeito de mordomo de filme e um carisma de torneira sem qualquer tensão, como comentei neste vídeo, Temer não era o melhor e nem o mais forte, mas o mais adaptado.
Noutra análise em que o comparava com Dilma Rousseff e outros políticos melhores com base na teoria das espécies, escrevi que:
Na Política, raro vi vencerem os melhores e nunca os mais fortes. Minha primeira ilha de galápagos foi o pântano da escolha do governador de Minas por via indireta, pelo general Ernesto Geisel, nos estertores da ditadura militar, no final dos anos 70.
Entre tantos políticos mineiros melhores e mais qualificados no cardápio disponibilizado ao ditador por seus acólitos, ganhou o piauiense Francelino Pereira, cujo principal dote era ter servido ao regime com uma subserviência canina, à beira da pusilanimidade, como líder da Aliança Renovadora Nacional (Arena) no Congresso. Era o adaptado perfeito.
Com o tempo, convivendo por dentro e por fora, na política ou nas empresas e instituições por onde passei, fui vendo o triunfo dos medianos sobre os mais preparados, até dar em Michel Temer.
Esse exemplar acabado da adaptabilidade vem, como seu partido, se mantendo à sombra e às vezes dentro do poder há algumas décadas, sem precisar de voto.
Sua antítese é Dilma Rousseff, a aprendiz de nadadora sem altura e jogo de cintura, que caiu de paraquedas na arena de cobras de tamanho médio do pântano de Brasília. Sem nenhuma capacidade de adaptação ao meio.
O povão pouco esclarecido tem a ilusão de achar que símbolos de competência, inteligência ou lisura como Pelé, Silvio Santos, Joaquim Barbosa, Sérgio Moro ou Fernanda Montenegro seriam grandes presidentes da República.
É a tentação primitiva de achar que pessoas mais inteligentes, e talvez por isso mais fortes, são mais preparadas para tudo.
Durariam menos que Dilma.
Ver artigo Dilma, Temer e por que, na política, vencem os mais adaptados
Por conta dessa capacidade de adaptação em mais de 30 anos de subserviência e do talento para abarcar interesses como com seu tricô gestual, havia facilitado o impeachment. Um arranjo do establishment político para, entre outras razões, salvar a própria pele diante da Lava Jato, como expliquei em Por que se apressou o impeachment.
Atraíra o efeito manada de que se falava muito à época, na esteira da traição em massa dos políticos que acorriam em sua direção, em fuga do governo a que haviam servido com o oportunismo costumeiro até a véspera.
A expressão “efeito manada” esteve em boa parte do noticiário desta quarta-feira — só em O Globo apareceu no título das colunas de Ilimar Franco, Lauro Jardim e Merval Pereira — para explicar a debandada dos deputados, mesmo os fiéis ao governo, para o lado do restaurante cheio do vice Michel Temer.
Estão agindo por status, ambição de poder, aprovação social ou sobrevivência, como em tudo na política e na política da vida.
E, por que não?, aproveitando para saquear e depredar o carro abandonado do governo no ambiente degradado de Brasília.
>>> Entenda as circunstâncias da época no artigo Efeito manada pula do carro de Dilma para o restaurante de Temer
Reformas salvaram imagem no início
O tom conciliatório em excesso seria seria determinante no ajuste das contas depauperadas por Dilma e nas reformas necessárias do Estado. Mas redundaria no clientelismo de sempre, que iria deixar o governo no mesmo tamanho do que o que substituiu e com a mesma sem cerimônia para fazer negócios fora da agenda.
Começou desistindo da proposta de reduzir os 39 Ministérios de Dilma para 20. Acabou em 29, sem mulher e sem negros, numa paleta monocromática que deu o primeiro gancho para a maledicência da esquerda machucada por ter sido defenestrada do poder.
Salvava-o justamente o que desagradava a esquerda e seu modelo cartorial de economia.
Melhorava seu cacife junto à maioria da população quanto mais acenava com as reformas de reorganização do Estado que o novo ministro da Fazenda Henrique Meirelles tocaria para implementar uma economia de mercado, de livre competição e pouca intervenção, sem privilégio a setores.
Escrevi:
Sua casaca gramatical cheia de caspas do século XIX, na frente de um Ministério monocromático de homens brancos de ternos cinza, no seu pronunciamento inaugural do novo governo, suscitou implicâncias nas redes sociais, opiniões e artigos nos jornais. Seria uma volta ao passado em contraste com o quadro na parede de Dilma Rousseff se despedindo na frente de seu grupo colorido e multirracial.
A comentarista da Globo News Renata Lo Prete achou o quadro “meio retrô” e o articulista Bernardo Mello Carvalho escreveu na Folha de S. Paulo que foi a maior guinada à direita desde 1964.
Outra maioria dos livres pensantes nas redes cobrou uma cota de negros, mulheres e homossexuais. Como naqueles comerciais de crianças brancas sorridentes que o publicitário salpica aqui e ali uma criança negra para não pegar mal.
Não deixa de ser curioso imaginar o presidente escarrapachado na cadeira giratória, depois de um dia de rodadas exaustivas de articulações para fechar o Ministério, olhando para o teto num devaneio: “bom, agora preciso arranjar um negro, uma mulher e um homossexual”.
Não quero acreditar que tanta gente inteligente acredite que cor, sexo ou preferência sexual sejam pré-requisitos para ocupar cargo ou que que seus detentores sejam mais competentes para tratar de políticas públicas relacionadas a suas condições e preferências. Acreditam certamente que é o retrato na parede do discurso de Temer evoca um modelo antigo, patriarcal, conservador.
Mas, confrontando os dois quadros, entre o monocromático e o colorido, o branco e o diverso, o velho e o novo, eu acabo por me perguntar quem é conservador, se é o discurso do velho de Temer em economia que mais afinado vem com os tempos modernos.
Pelo que se ouviu em seu pronunciamento e nas entrevistas do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, o novo governo defende reformas para fortalecer a livre iniciativa e a liberdade de competição, sem privilégio a setores, em oposição a um modelo intervencionista anos 50, cartorial, controlador e xenófobo, quase coronelista, de subsídio a escolhidos.
>>> Ver o artigo Quem é o progressista no quadro: o liberal Temer ou a intervencionista Dilma?
Recuos conciliatórios traem debilidades, apesar dos resultados
A praga do excesso de conciliação, numa Brasília em que ela é material de primeira necessidade, começou a fazer estragos na imagem de um governo que se anunciava forte e reformista.
Com recuos em série para atender interesses de todo tipo, Michel Temer lembrava, conforme escrevi, Itamar Franco e seu estilo mercurial de trocar ministros e mudar de rumo na orelhada, segundo o que ouvia da imprensa.
Para enfrentar críticas e pressões no Congresso, nas ruas, no noticiário e nas redes sociais, o presidente interino Michel Temer já coleciona em menos de um mês de trabalho uma lista considerável de recuos para adornar sua biografia.
Além dos tropeços iniciais de recuar no tamanho do corte de Ministérios e ter que desautorizar auxiliares afoitos — como o ministro da Justiça que questionou a forma de escolha do Procurador Geral, e o da Saúde, que propôs reduzir o tamanho do SUS —, está deixando a impressão de biruta de aeroporto.
Frágil, vulnerável, dependente de sustentação, anda naquela situação de quem precisa agradar todo mundo para ser aceito no baile.
Líderes hábeis que não chegaram ao governo por um tropeço da história sabem colocar bodes na sala, anunciar dificuldades logo no início para vender facilidades a médio prazo, fazer o mal de uma vez e o bem aos poucos, como ensina a cartilha. Mas não parece ser o caso de Temer.
Lembra assustadoramente Itamar Franco, que demitia ministros de orelhada, para se fazer conhecido e respeitado depois da derrubada do primeiro — e bem aprovado — presidente eleito pelo voto direto depois da ditadura, Fernando Collor de Mello.
Ver artigo Recuos de Temer lembram Itamar e o risco de agradar ao inimigo
Daí que o governo ia bem, fazendo o que era preciso, mas com péssima repercussão na mídia.
Cavalgava uma irremovível crise de credibilidade que o acompanharia e só pioraria, por outros motivos, até o final do governo.
Fechara 2016 com um país alguns quilômetros melhor do que o que herdara oito meses antes. Listei à época pelo menos dez grandes medidas de impacto para moralizar e reorganizar o Estado, que apontavam para um horizonte de bom senso. Impossível meses atrás.
É quase impossível fazer reforma estrutural, limpar o passado e refazer o presente, num país cartorial de máquina pública inchada e engessada, Congresso desmoralizado e corporações públicas e privadas apressadas em assegurar o seu naco antes que o país acabe.
Mas não é pouco o que Michel Temer conseguiu aprovar ou encaminhar em seus oito meses de governo. Apesar de tropeçando no seu jeito vacilante, pouco à vontade diante do alto índice de rejeição que vazou da minoria comprometida com o governo anterior para uma faixa mais larga da população sem preconceito ideológico.
– Colocou um técnico com plena autonomia para gerir a Petrobras sem interferências políticas.– Propôs e conseguiu aprovar o fim do monopólio da empresa na exploração do Pré-Sal.
– Propôs e fez aprovar a nova lei de governança de estatais, agências reguladoras e fundos de pensão, que acaba com indicações políticas e estabelece regras de gestão como a das empresas de capital aberto.
-Propôs e fez aprovar a lei que destrava as privatizações no setor elétrico.
Propôs e fez aprovar a PEC do teto de gastos.– Propôs e fez aprovar na Câmara a reforma do ensino médio.
– Encaminhou sua proposta de reforma da Previdência.
– Encaminhou a negociação e aprovação de lei para socorro aos estados endividados.
– Apresentou uma série de medidas que independem de lei, ainda que tímidas, para aquecimento da economia.
– Adotou medidas para desengessar as relações trabalhistas, no que permite a prevalência dos acordos coletivos sobre a CLT.
Algumas mais fundas e estruturais, outras meia-sola, boa parte dependendo ainda de exaustiva deliberação do Congresso. No geral, porém, um conjunto que sinaliza um horizonte de bom senso para reorganizar o país e sua economia.
Mais importante, causa, reflexo ou pano de fundo, construiu uma maioria parlamentar segura para continuar o serviço e sinaliza para tempos de paz, a tal pacificação do país que é centro de sua proposta para a travessia até 2018.
O país deste final de 2016 está uns quilômetros à frente do que o que se encerrou há um ano, alguns dias depois de o presidente da Câmara Eduardo Cunha acatar o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, num cenário sem perspectiva de coesão para aprovar qualquer coisa.
Ver artigo Dez reformas de Temer fecham ano com horizonte de bom senso
Primeiro caso de improbidade trinca a imagem
O clima de otimismo e certa consciência de que as coisas iam bem deixou em baixa dimensão a denúncia grave do jovem ministro da Cultura Marcelo Calero de que fora forçado — ostensivamente pelo ministro da Secretaria do Governo, Geddel Vieira Lima, e sutilmente pelo próprio presidente — a cometer uma improbidade administrativa.
Deveria destravar a construção interditada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) de um prédio em Salvador em que o ministro comprara um apartamento.
Com a repercussão limitada a uma imprensa desconfiada desde a primeira hora das intenções do governo, Michel Temer fechou também o ano poupado pelas multidões que foram às ruas naquele dezembro.
Puxadas pelo Movimento Brasil Livre, se restringiam a protestar contra a Câmara dos Deputados, os deputados e as manobras para desidratar as dez propostas de combate à corrupção dos procuradores da Lava Jato.
O presidente Michel Temer vinha apanhando mais do que merecia no decorrer da última semana, mas acabou poupado dos protestos pela sabedoria das ruas.
O noticiário influente dos grandes veículos de comunicação misturou a saída do ministro Geddel Vieira Lima por tráfico de influência com o pacote de maldades da Câmara contra o Judiciário e as pressões contra o ministro da Economia, Henrique Meirelles, para colocar tudo na conta dele.
Fechou a semana num campeonato para desmoralizá-lo por ir ou não ir ao velório da Chapecoense.
De tal forma, que ele vinha sendo acusado simultaneamente de explorar a tragédia se fosse e de omissão pelo contrário. Como acabou indo, foi acusado de ter cedido às críticas. Que esse noticiário criou ou turbinou.
As ruas deste domingo, porém, o pouparam.
A multidão impressionante em várias capitais delimitou muito claramente as críticas ao Congresso, que teria aproveitado a madrugada da comoção nacional pela tragédia do time de Chapecó para desfigurar o projeto contra a corrupção e emparedar o Judiciário. Em defesa da Lava Jato, bateram muito especificamente nos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, Rodrigo Maia e Renan Calheiros.
Quase sempre mais sábia que os jornais, as ruas parecem ter entendido neste caso que o presidente não tinha envolvimento direto com a manobra parlamentar.
Um pouco mais fundo, que ainda não é hora de levar água para o moinho dos viúvos de Dilma Rousseff. Aproveitando a onda, eles vinham saindo em defesa das prerrogativas de um Congresso que até então era tido como golpista.
>>> Ver artigo Sabedoria das ruas bate no Congresso e acha que não é hora de Temer
Por essa época, o país vivia a maior crise penitenciária da história, abrindo janeiro de 2017 com genocídios em massa dentro de prisões do nordeste e o noticiário da volta de doenças do século XV, como, entre outras, Sífilis e Febre Amarela.
Mas não havia mais uma sensação de fim de mundo.
Estivéssemos no início do ano passado, a caminho do impeachment, era caso de dar tiro no ouvido.
Hoje, porém, a sensação é de dor mansa dosada de certa condescendência alimentada por uma expectativa leve. A fase do “pior não pode ficar”, superada pelo “o pior já passou”, vai sendo substituída pela “no fim, tudo se resolve”.
>>> Ver artigo https://www.ramirobatista.com.br/governo-acha-caminho-de-casa/
Escândalos expõem cara e caráter do governo
O problema é que as denúncias de corrupção começaram a rondar perigosamente o grupo que estava no governo, que parecia usar seu talento negociador e suas reformas para camuflar seu mau caráter.
Além da denúncia de Calero, outras bombas de efeito retardado estavam a caminho, cuspidas da peneira de vazamentos dos procuradores da Lava Jato.
Eles punham para circular a primeira das 77 delações de diretores da Odebrecht e sinalizavam que mais viriam com uma leva de executivos das construtoras Andrade Gutierrez e Camargo Correia. Outras apurações da Lava Jato de Brasília davam conta de desvios astronômicos em fundos de pensão.
Temer tinha que usar agora sua capacidade de articulação, não para tocar reformas, mas para tocá-las com pressa e ao mesmo tempo apressar no Congresso medidas que lhe servissem de cartas na manga para emparedar o Judiciário também enrolado em seus privilégios.
Numa tacada esperta, pediu ao procurador geral da República, Rodrigo Janot, que liberasse as delações todas de uma vez e não como vinha fazendo, em conta-gotas, para minar o governo.
Saciaria a fome da grande imprensa ávida pelo prometido fim do mundo que adviria das delações da empreiteira, diluiria o peso das acusações distribuídas de norte a sul pelo espectro político, mais confundiria que explicaria (como no caso dos 40 indiciados de uma só vez no Mensalão) e encurtaria o prazo de repercussão.
Tinha também pressa de arrancar da sociedade alguma sinalização de que estava dando resultado, para não ser engolfado por um movimento sem controle das ruas que pedisse sua renúncia e convocação de eleições, como sinalizavam os péssimos indicadores de sua rejeição no DataFolha naquele fim de semana.
Ou, pior, iria sendo sangrado até 2108 pelo vazamento longo, lento e sistemático das delações, à média de uma por semana. Ou exatamente ano e meio de solavancos até a campanha de 2018, considerando-se as 77 delações.
Ver artigo Na Linha de tiro, Lula, Renan e Temer correm contra o tempo
Só que não dá (não dava) para controlar tudo, muito menos quando não se está (como se não estava) empenhado de fato a mudar o país e seus costumes. Ou, no caso de Michel Temer, os seus próprios.
Numa noite de março de 2017, ele recebeu o empresário Joesley Batista da Friboi, na surdina, depois do expediente, sem registro e sem filtro, para tratar de interesses de submundo, contrários a tudo que seu governo apregoava.
O escândalo vazou dias após outro de iguais proporções, envolvendo o principal líder da oposição e associado do governo nas reformas, Aécio Neves, flagrado pedindo propina ao mesmo Joesley. Os procuradores haviam armado uma arapuca legal para os dois, em parceria com o empresário que ganhara de prêmio liberdade e salvo conduto para viver em Nova York.
No artigo de puro desabafo que escrevi quando o escândalo estourou, eu registrava que o país voltara a parar, como de tantas outras vezes, porque os dois irresponsáveis que lideravam as mudanças imprescindíveis tinham resolvido meter o pé na jaca:
Somos um caso curioso de elite política de fato pior do que o eleitorado que a gestou. Separada de um país que trabalha e responde rápido aos chamados por racionalidade, apesar de alguns guetos de reacionarismo
O país sempre cresceu depois das sacudidas, se enquadrou, e já respondia rápido às reformas que Michel Temer tocava em parceria entre outros com o presidente do PSDB, Aécio Neves.
Com razoável sucesso junto ao Congresso e já bons reflexos na economia, começaram a pipocar aqui e ali notícias de recuperação, como a do número de novos empregos em abril.
Mas foram justamente os dois, que davam sustentação à ponte tênue e de pouca representatividade que construíram até as próximas eleições, que puseram tudo a perder.
Não porque tinham outro projeto de economia, divergências de fundo ideológicas, dificuldades com a base política ou com o país que sempre responde na hora certa. Mas porque enfiaram o pé na jaca.
Como que os dois, próceres mais relevantes da vida nacional, com responsabilidade perante a história e as próximas gerações, pedem ou sugerem propina como se fosse parte do jogo democrático e ainda por cima quando a operação contra a corrupção mais importante da história da humanidade está nas ruas prendendo gente até pela sombra? Que tipo de costumes são esses que produziram esse tipo de cegueira?
Não pode ser uma questão de caráter do povo brasileiro, mas de um caso isolado, lamentavelmente isolado. Ou de uma consciência muito ruim de que com o povo brasileiro e seus empresários, como os irmãos Batista da Friboi, só se pode conversar na base da propina.
Ou então, melhor acreditar, seja mesmo apenas um caso de desespero. Estão todos precisando de advogados que custam R$ 2 milhões e vêem neles a única possibilidade de adiar a prisão.
O que também é uma grande diferença em relação à maioria da população que acorda cedo, rala e só tem medo mesmo é do salário não dar até o fim do mês.
Ver artigo Temer Aécio explodem a única ponte e país para de novo
Articulação agora é para não acabar
Se tinha que correr antes para evitar que as denúncias minassem seu governo, Temer agora precisava correr para seu governo não acabasse antes da hora.
O tom conciliatório e a capacidade de negociação seriam postos à prova para barrar a denúncia por crime de responsabilidade no Congresso. Mas era preciso mais. Era preciso apascentar uma opinião pública ainda de boa vontade com o governo, mas de paciência curta diante da gravidade das denúncias.
Em reação às denúncias, ele começou mal, num discurso desesperado de que não sairia do governo, na mesma quinta-feira em que o escândalo estava nas manchetes.
Depois, um tanto pior, ao acusar a imprensa de ter parido um rato da montanha que fora seu assessor, Rodrigo Rocha Loures, aparecer no Jornal Nacional correndo com uma mala de dinheiro. Quando na verdade ele é que havia parido uma montanha.
Foi melhorando a refinando a versão nos dias seguintes, até escolher os inimigos certos e responsabilizar Janot por premiar o delator com estadia cinco estrelas em Nova York.
O acerto, repudiado pela opinião pública, angariou boa vontade uma sociedade ainda disposta a tolerar governo.
Aprendera a falar grosso.
Dois pronunciamentos mais duros depois, contra o empresário e a legitimidade das gravações, disse em entrevista à Folha de S. Paulo que sentia uma boa repercussão do seu novo jeito.
— Como o sr. está sentindo a repercussão de seus dois pronunciamentos, mais incisivos?
— Olha, acho que eles gostaram desse novo modelito [risos]. As pessoas acharam que “enfim, temos presidente”.
Da defesa, partiu para o ataque. Do jeito escorregadio de lorde acostumado a puxar políticos, empresários e juízes para dançar, partiu para a guerra.
Ver artigo Temer aprendeu a falar grosso e ataca em sete frentes para ficar
Problema é que, às traficâncias relevadas nas gravações da polícia federal na conversa noturna com Joesley no Palácio, acrescentava-se agora o processo de sua cassação no Tribunal Superior Eleitoral junto com a chapa encabeçada por Dilma Rousseff, por gastos irregulares na campanha de 2014.
A iminência da votação do processo no TSE, no rescaldo de outro por sua cassação no Congresso, a partir de denúncia relacionada ao crime de responsabilidade das conversas gravadas com Joesley, fazia de seu governo quase um defunto.
Saída só dependia de acertos políticos
Sua saída não dependia mais tanto do resultado desses julgamentos, mas de acertos políticos. O obstáculo a seu favor é que não havia um substituto a vista.
O obstáculo verdadeiro é quem encarnaria a solução que daria segurança aos que ficam e aos que saem. Que inclui a carta de um salvo conduto para Temer depois de sua queda, na forma de uma emenda pela extensão do foro privilegiado aos ex-presidentes, num grande pacto nacional de mútua proteção.
Desde a Lava Jato, nenhum político considera a possibilidade de deixar a vida pública, por renúncia ou cassação, para não perder o foro privilegiado e, de novo, seus famosos prazos elásticos.
O novo presidente por eleição indireta precisaria dar a Temer e seus ministros alguma garantia de que estariam protegidos de Sergio Moro e dos seus discípulos nas outras praças. Enquanto escrevo, o ex presidente da Câmara e ex ministro Henrique Alves acaba de ser preso como mais um dos que não conseguiram ficar em casa depois de perder o foro.
Rodrigo Maia, que assumiria a Presidência no prazo necessário para encaminhar a sucessão por via indireta, começa a se afigurar como essa possibilidade.
Articulador talentoso que sucedeu e abateu Eduardo Cunha com rara habilidade, tem bom trânsito em todos os partidos e vem conversando com todo mundo, inclusive com o PT que namora a emenda do foro privilegiado para seu ex.
Caso Maia construía essa saída, aí, sim, é que Temer tem que começar a se preocupar.
Ver artigo Saída de Temer depende de acerto político e não judicial>
Com pouco mais de um ano de vida e a dois e meio do fim, o governo já virara um pato manco, na expressão atribuída nos Estados Unidos ao presidente que perde antes do fim a maioria do Congresso, a capacidade de articular consensos e governar.
Com a agravante de que, no desespero de evitar sua cassação, Temer começou a abrir os cofres de um pais já combalido, para comprar apoio, e a pagar cada vez mais caro para ficar.
Michel Temer era a solução que virou um problema, uma versão do “pato manco” americano, que explico mais abaixo. Quanto mais se mexe para se manter no poder, mais caro tem que pagar em sacrifício de reformas essenciais para aquietar uma base cada vez mais voraz.
Tinha começado bem. Teve o despreendimento de se colocar como solução temporária, sem ambição de reeleição, para reduzir as resistências à aprovação de medidas amargas.
Chegou a algum sucesso e mostrar a que veio nos primeiros oito meses de governo.
Mas, abatido em pleno voo pela má hora de negociar com um criminoso em altas horas no Palácio, voltou a ficar refém de uma base que não perde a hora para cobrar sua fatura e alavancar seu preço.
O PSDB e sua dança de ameaças de rompimento é apenas a parte mais visível de um processo de chantagem, explícita ou sutil, que torna as reformas mais custosas e arrastadas. A da oposição, que rasgou a reforma trabalhista na Comissão de Ação Social do Senado, outra.
O resultado também mais visível é que a inadiável reforma da Previdência já foi para as calendas.
O anacrônico imposto sindical, um dos pontos centrais da reforma trabalhista, foi colocado na mesa em troca da boa vontade com o processo de denúncia do presidente na Câmara e, em menor grau, reduzir os protestos de rua, como reduziu a greve geral de hoje.
Se para um presidente forte e respaldado publicamente, já é difícil tocar qualquer coisa, para um ‘pato manco’ fica ainda mais difícil.
Os americanos cunharam a expressão para designar o presidente da República que perde a capacidade de aprovar o que precisa no Congresso depois da perda ou redução da maioria na eleição parlamentar.
No Brasil, onde a maioria política arenosa é mantida a escambo permanente, nossos presidentes são meio patos aleijados que só conseguem aprovar alguma coisa se aumentar a troca e ceder ao poder de chantagem.
Daí que nossa cultura política gerou o presidente que administra só no primeiro ano, comete as maldades necessárias para consertar o estrago do antecessor, e passa os outros três anos de mandato se preparando para a próxima eleição, evitando melindrar uma base insaciável.
Ou é ditador e faz o que é preciso sem precisar de voto, como os presidentes militares.
Ver artigo Pato aleijado, Temer paga cada vez mais caro para ficar no poder
Saída precificada e substituto arranjado
A essa altura, sua saída já estava precificada.
Chama-se “precificar” no mercado financeiro o cálculo do risco embutido numa carteira de investimentos. Há até um modelo de nome em inglês — CAPM (Capital Asset Pricing Model) — para calcular o limite de prejuízo numa carteira de ações considerando as variáveis não controláveis.
Quer dizer, se o pior acontecer e uma ação vier a seu preço mais baixo, “estamos no lucro”.
Os mercados político e financeiro começaram a comprar esta semana ações Rodrigo Maia, no cálculo de que nada muito grave pode acontecer se ele assumir a presidência no lugar de Michel Temer.
Dependendo das circunstâncias, pode até dar um lucrinho, na medida em que dará certa paz ao primeiro e fará as reformas do segundo.
Podem ter ficado mais confortáveis ontem, confiantes na segurança de seus investimentos, com a declaração de um dos principais agentes do primeiro, o presidente do PSDB Tasso Jereissati.
Ao admitir publicamente que o presidente não tem mais condições de garantir a governabilidade e dar uma facada pública nas costas do correligionário que seu partido sustentava, um cacique como ele já deveria estar antevendo os sinais favoráveis da nova aposta ou agindo com certo tipo de informação privilegiada para aumentar artificialmente o valor da ação.
Ver artigo Mercado político financeiro já precificaram saída de Temer e apostam em Maia
Acontecera o pior.
Já tinham escolhido o seu substituto, a peça que faltava nas articulações para sua saída.
O determinante para a queda do presidente Michel Temer não é necessariamente a denúncia do procurador-geral Rodrigo Janot e nem a perda de parte do controle da base política no Congresso que vai votá-la, mas o fato de que o mundo político já escolheu seu sucessor.
Eliane Catanhêde, do Estadão, lembrou bem que as crises se resolvem quando esse universo entra em acordo sobre o substituto, como ocorreu com Itamar Franco no impeachment de Collor de Mello e o próprio Michel Temer no de Dilma Rousseff.
Eu acrescento Tancredo Neves, o protótipo de substituto bem encaminhado da nossa história recente, que tornou viável a travessia que parecia impossível da ditadura para a democracia. Tanto mais relevante porque não só a viabilizou como a tirou das mãos de outra crise chamada Paulo Maluf, escalado pelos militares para substituí-la.
(Pode-se acrescentar também, como curiosidade histórica, o caso de Fernando Henrique Cardoso, que se viabilizou como substituto de Itamar Franco, que era a própria crise com seu humor variável que demitia ministros da Fazenda pelos jornais.)Para chegar lá, esses eventuais também se viabilizam, claro, numa confluência de destino e habilidade. Costuram acordos, fazem concessões, sintonizam suas ambições com as do status quo, acenam para algumas vontades coletivas e oferecem cargos e posições de comando.
Há pouco mais de mês, o nome de Rodrigo Maia não estava no radar e a situação parecia sem situação a vista.
Toda a crise se resumia à falta de um nome. Fora alguns artistas e a esquerda minoritária em favor de Diretas-já, “Tirar Temer para colocar quem?” era a pergunta de alto a baixo do espectro político majoritário, de alto a baixo dos mercados financeiro e de comunicação.
Maia, um articulador eficiente, fez o dever de casa. Circulou, conversou, manteve as pontes com o Palácio — substitutos inteligentes não afrontam os futuros — e se preparou para quando fosse chegada a hora.
Mais do que isso — e é próprio dos substitutos espertos em construção — soube farejar que sua hora chegaria.
A hora chegou porque, como ele teria dito a Temer e qualquer estagiário de Ciência Política sabe, o presidente pode até derrubar essa primeira denúncia contra ele, por margem apertada na Comissão de Constituição e Justiça e no Plenário, pagando caro. Mas, pelas sequelas deixadas, não consegue poder para governar daí pra frente e muito para enfrentar as duas denúncias seguintes que Rodrigo Janot prepara.
Ver artigo Problema maior de Temer é já terem escolhido seu substituto
De pato manco a irrelevante
A essa altura, Temer passara de pato manco a pato irrelevante. Sem qualquer influência no jogo político, a ponto de passar incólume nas eleições de 2018, e sem qualquer relevância no noticiário.
Um sinal eloquente é que a prisão de 13 pessoas ligadas direta ou indiretamente a ele, a partir de denúncia da procuradora que nomeara em substituição a Janot, Raquel Dodge, sequer teve repercussão que denúncias de menor peso tiveram antes.
Repercutiu pouco na grande imprensa e quase nada nas redes sociais por três coisas, a meu ver:
– O cansaço geral da população com denúncias e certa sensação de impunidade com os políticos da cadeia de comando, que tornaram um tanto paisagem monótona qualquer nova operação policial contra corrupção. No ponto em que o esticamento da Lava Jato anda dando mais preguiça que excitação.
– A falta de um instinto de vingança contra Temer, como o há contra Lula e o PT. O presidente nunca incomodou quando foi vice figurativo, nunca empolgou enquanto tocava as reformas como presidente e nem representa ameaça eleitoral em cima dos seus 95% de rejeição, muito menos depois das novas denúncias. Contra Lula e o PT há o instinto de revanche que alimenta as redes, por tudo o que entregaram ao contrário do que pregaram e porque ainda acenam como ameaça eleitoral.
– Temer não tem carisma e contradição que valha à pena explorar. Num dos poucos vídeos que cometi como experiência no Youtube, mostro como ele não tem tração, a contradição que faz mitos como Marlyn Monroe, Princesa Diana ou Bon Jovi. Ele é previsível, monocórdio e sem graça como uma dobradiça. Diferente também aí de Lula, o herói shakespeariano de pés de barro, que se mostra o contrário do que se sabe a seu respeito.
Sua irrelevância também se acentua ao se considerar que ele nada mais tem a oferecer, nem para fora e nem para dentro, nem para a sociedade e nem para os aliados.
Porque, entre outras coisas, já aprovou o que havia por aprovar, no campo das reformas. O clima já ruim para se aprovar qualquer coisa de relevante até o fim de seu governo, em 1º de janeiro, ficou inviável com o racha que acabou provocando na base ao se lançar recandidato contra o ministro Henrique Meirelles e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia.
Como a articulação também saiu de suas mãos, nada mais tem a oferecer a seus aliados além dos últimos Ministérios que entregou para não deixar a casa esvaziar antes da hora.
Vai ter que se consolar com o café frio que os garçons do Planalto entregam aos presidentes em fim de carreira. Quem sabe testar o que lhe resta de prestígio para negociar uma indicação de ministro no próximo governo. Assegurar um cargo de foro privilegiado que o proteja do relator de seus processos no STF, ministro Luís Barroso.
Não é, nem de longe, bom personagem a se bater nas redes sociais. Que, como os políticos, não costumam bater em cachorro morto.
Ver artigo Agora irrelevante, Temer reduziu a repercussão das novas denúncias
Estratégias de marketing para salvar a pele
Em diferentes e vários momentos, Temer teve a tentação de fazer gracinhas e apelar a estratégicas de comunicação para salvar seu mandato e a si próprio perante a história.
Houve um momento em que vestiu Marcela Temer, a roupa mais elegante que alguém pode sejar para posar bem.
Marcela Temer deu uma rajada de frescor com seus vestidos vaporosos no mundo de ternos e bigodes escuros da capital da República. Na parada de Sete de Setembro, numa solenidade de apresentação de oficiais das Forças Armadas e, por fim, no anúncio do programa Criança Feliz, onde até fez o que nem precisava: falou.
O governo vai negar até sua morte, no final de 2018, mas nada me tira da cabeça que a exibição aparentemente involuntária de quem se casou com um presidente da República, ampliada com as movimentações de mudança para Brasília e acompanhamento do presidente em viagens internacionais, não é totalmente gratuita.
É parte de uma estratégia mais ampla de marketing e relações públicas para criar fatos e melhorar a cara de um governo em que a maioria quer acreditar, mas vem achando difícil.
Que incluem uma turbinada da presença do presidente nas redes sociais (até embarcou na onda de colocar foto de infância na Semana das Crianças), no corpo a corpo com jornalistas e apresentadores de TV, nas próprias viagens de exibição internacional e, claro, no investimento de publicidade paga nos grandes meios de comunicação.
Há um momento na vida do governante brasileiro que ele sente uma compulsão por fazer publicidade paga de seus atos. Um pouco como Frank Sinatra, que, no final da vida, andou mandando comprar ingressos de seus espetáculos na Europa para evitar o constrangimento de se apresentar diante de plateias vazias.
Deriva da angústia de achar que está sendo injustiçado pela grande mídia, apesar de estar tentando fazer tudo certo, e da pressão do entorno de marqueteiros e agências de publicidade cheios de sangue no olho por uma verba que, apenas no governo federal, fora estatais, beira o R$ 1 bilhão ao ano.
Ver artigo Temer veste Marcela para melhorar seu marketing
Já nos estertores de seu governo, avariado muito antes de terminar, me perguntei por mais de uma vez o que, além do carisma de torneira sem tração, o fazia tão impopular apesar de estar fazendo o que era preciso.
Na pior das hipóteses, ter feito mais que muitos outros, a começar de sua antecessora.
Daí a tradição dos governantes brasileiros de fazerem todas as maldades no primeiro ano e irem dosando as bondades ao longo dos outros três. Velho como Maquiavel: o mal de uma vez só e o bem aos poucos.
O problema de Temer, com a mais baixa taxa de aprovação da galeria dos presidentes da República, é que seu tempo é curto demais. Só teve e possivelmente só terá tempo para fazer as maldades necessárias das reformas urgentes, capitaneando uma força sobre o Congresso que poucos presidentes tiveram.
Até porque é a única obra que detém/deteve para garantir seu passaporte, namorando o apoio daquela faixa do PIB que manda e de onde espera que emane investimentos, boa vontade e repercussão de comunicação para o resto da população. Os 5% das pesquisas.
Só agora há pouco, tocado pela mosca roxa da rejeição e no desespero de se salvar da denúncia de corrupção que quase lhe mandou para casa, andou afrouxando a arrumação. Distribuiu algumas gracinhas para os deputados e caiu na tentação de manobras fiscais que fizeram a desgraça da presidente que ajudou a derrubar.
Sua grande obra, como as pracinhas que os prefeitos costumavam inaugurar antes da eleição, seria uma situação de pleno emprego, consumo aquecido e indústria produzindo em alta escala, como nos melhores momentos de FHC e Lula.
Mas essa não é uma pracinha que se inaugure antes das eleições de outubro do ano que vem.
Seus esforços para criar uma agenda positiva, inaugurar a sua pracinha, virou um desfile meio constrangedor de banalidades, como fazer cerimônia de pompa para inaugurar obra pronta, formalizar assinaturas de convênios ou anunciar a transferência de recursos de ambulância para tratamento bucal.
Como aqueles velhos, bons e desesperados prefeitos do interior, que, sem uma praça para chamar de sua, inauguravam até torneira em véspera de eleição.
É o efeito colateral perverso da nossa República. Como fazer rede esgoto, enxugar órgãos desnecessários e demitir funcionários não dá voto, é preciso inaugurar torneira.
Ver artigo Poder e por que Temer vai tão mal se faz o que é preciso
Tudo somado, foi o mordomo de filme que procurou servir a todos, nunca colocou dificuldades para ninguém, soube mandar pela janela rápido as crises que entravam pela porta, colaborou com elegância até a última hora com o futuro governo.
Mas, contra todos os seus esforços, sua elegância e sua boa vontade, pesou a sujeira debaixo do tapete que emergiu para cima da mesa da presidência da República.
Para a população, Temer era o homem certo na hora certa, mas nunca mereceu totalmente a sua confiança. Por se saber que, no fundo, era tão ou mais enrolado que os outros presidentes de partido que agenciaram propina para campanha de seus aliados.
Como Lula, pelo PT, e Aécio Neves, pelo PSDB. Só não pagou mais caro à Justiça ainda, porque se manteve refugiado no foro privilegiado da presidência da República.
Vai sair tendo dado grande contribuição ao país. E pode ser que, como Lula e Aécio, seja redimido pela história em algum momento. Até lá, vai ter outros motivos péssimos junto aos tribunais para aparecer nos compêndios escolares.






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