Alinhamento ideológico e defesa do livre mercado posicionam o filho de Bolsonaro como o parceiro ideal para os americanos conterem o avanço comercial da China.

A opção preferencial de Donald Trump por Flávio Bolsonaro nas eleições é facilmente compreensível pelo histórico norte-americano de se intrometer em países para torcer ou ajudar candidatos mais afinados com seus valores econômicos, políticos e culturais.
Que me lembre, desde que Hollywood desceu no Rio de Janeiro para vender Zé Carioca e exportar Carmen Miranda vestida de baiana, passando pela CIA e Jimmy Carter querendo ajudar ou derrubar os militares de 64, até a arapongagem que grampeou Dilma Rousseff em meio a uma espionagem comercial de governo.
Dependendo do lado, pode ser entendido como elogio.
Flávio é da linhagem dos políticos que defendem a livre iniciativa, o capitalismo, a competição, o livre acesso ao capital estrangeiro para produzir riquezas no Brasil. Lula, o contrário. É um intervencionista radical, que só vê saída pelas mãos do Estado.
Donde que, por mais que seja bom negociador e se mostre disposto realmente a negociar com Trump, há sérios obstáculos ideológicos, de visão de mundo, que fazem com que seja visto com desconfiança pelo outro lado. “Esse não é dos nossos.”
Não à toa. Na questão crucial das terras raras, ele pode até dizer que negocia e pode ter realmente disposição íntima, mas seu DNA é de controle e dificuldade para o capital estrangeiro.
É refém de um partido que afundou o pré-sal porque restringiu os investimentos na Petrobras e acabou de endurecer o projeto de lei das terras raras no Congresso, propondo uma comissão de intervenção estatal para vigiar com lupa a margem nacional na produção.
Para Flávio, é liberar geral. Deixar o dinheiro, a tecnologia e a ambição externa competirem para nos ajudar a arrancar e processar os minerais nobres antes que virem cascalho exportado em locomotivas para a China, como os minérios de Minas Gerais. Ou petróleo morto no fundo do mar.
Pode ser entreguista para o modo lulopetista de ver o mundo, mas se encaixa perfeitamente no espírito americano e no que é atualmente a maior obsessão dos capitalistas do norte, apavorados com a China. Com a qual, aliás, Lula tem mais afinidades.
Haveria outros tantos exemplos da resistência trumpista a Lula, como, para ficar numa só, mais emblemática, recente: a sua cruzada para substituir o dólar por um dinheiro dos Brics. O imbroglio das terras raras é daquelas em que as razões de Trump contra ele ficam escancaradas.
Esse, o grande nó da questão, muito além do tarifaço, do enquadramento das facções do tráfico e de toda a patacoada palanqueira em que os dois estão envolvidos para simplificar o problema e se acusarem mutuamente para ganhar voto.
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