Inspirada no modelo americano, análise aponta que os conservadores brasileiros precisam de base intelectual e paciência histórica, fugindo de atalhos puramente políticos.

Ladies and gentlemen, Pablo Ortellado. O professor de Gestão de Políticas Públicas da USP lembra em artigo n´O Globo (1/5/26) o movimento de direita nascido em universidades americanas há mais de 40 anos para formar uma contraelite intelectual contra a hegemonia de esquerda nas universidades e no Judiciário, onde a ideologia prevalecia sobre a o pensamento independente e a letra da lei.
Muito oportuno diante da obesessão da direita em indicar nomes seus para equilibrar o jogo de forças no STF, o artigo desconstrói a ideia de que basta “trocar os nomes” nos tribunais. Aponta que, sem paciência histórica para construir uma base intelectual sólida como a americana, o movimento corre o risco de ser apenas uma disputa de poder bruta, sem a longevidade que a doutrina proporciona.
Sem perceber — e talvez detestaria perceber o que acrescento —, o brilhante professor lembra a mesma tese de Olavo de Carvalho, quando deu amparo intelectual a centenas de jovens líderes conservadores aqui no Brasil, nos anos pré-eleição de Bolsonaro, em 2018: que a direita precisaria de pelos menos 20 anos, com muito trabalho em pesquisas, estudos, publicações e militância, para tentar equilibrar esse jogo.
Segue um resumo do artigo:
“A direita brasileira vislumbra uma oportunidade histórica de construir maioria no STF caso vença a próxima eleição presidencial. Com a vacância atual e três aposentadorias previstas até 2030, o grupo poderia atingir seis das onze cadeiras da Corte.
O entusiasmo nacional baseia-se no sucesso recente da Suprema Corte americana, que garantiu vitórias cruciais a Donald Trump. Decisões sobre imunidade presidencial e controle administrativo fortaleceram o Executivo, servindo de modelo para as aspirações dos conservadores locais.
Diferente do Brasil, a hegemonia conservadora nos EUA é fruto de um projeto intelectual de 40 anos liderado pela Sociedade Federalista. O grupo criou uma contraelite profissional e acadêmica capaz de desafiar a hegemonia liberal nas universidades e tribunais.
O pilar dessa estratégia é o “originalismo”, teoria que defende a interpretação fiel do texto constitucional conforme o entendimento da época de sua ratificação. Essa abordagem congela o sentido da lei e barra a expansão de direitos progressistas modernos.
O originalismo funciona como um escudo doutrinário, permitindo que magistrados tomem decisões políticas sob uma aparência de neutralidade técnica. Ele inverte o jogo ao acusar os juízes progressistas de serem os únicos a exercerem ativismo judicial ideológico.
No Brasil, o cenário é oposto: a direita carece de uma teoria jurídica robusta e de penetração nas academias de elite. Além disso, aplicar o originalismo à Constituição de 1988 reforçaria, paradoxalmente, o projeto progressista e de proteção social nela contido.
Sem paciência histórica, os conservadores brasileiros buscam um atalho através de indicações puramente políticas. Sem o disfarce da doutrina, o plano corre o risco de ser visto como uma captura óbvia da Corte, aprofundando a politização que eles próprios criticam.”
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