Apesar de indicadores econômicos positivos, o presidente vê sua rejeição estagnada ao trocar a promessa de frente ampla pelo radicalismo de nomes como Boulos e Gleisi.

O governo se apressa para lançar o Desenrola 2.0, para aliviar o endividamento das famílias brasileiras, preocupado com o resultado das pesquisas nos chamados grupos focais — as entrevistas bate-papo entre pesquisadores e uma amostra estatística de eleitores, mais abrangentes e profundas do que as quantitativas, dos formulários de “sim” ou “não”.
Neles, a picanha não veio, os preços estão altos no supermercado, a vida piorou e Lula não deve continuar, de jeito nenhum. Ainda que o governo exiba bons indicadores macroeconômicos: inflação baixa, emprego em ascensão, sistema produtivo turbinado.
Especialistas, políticos e jornalistas juntam esse mingau com as denúncias de corrupção que sempre caem no colo dos governos da hora nos sistemas presidencialistas, para explicar a receita de sua trava eleitoral. Mas estou com o brilhante analista Murilo Aragão, da Arko Advice.
Ele disse no Análise WW da CNN Brasil que, com os números do governo e a dispersão da direita, Lula seria eleito no primeiro turno se tivesse de fato compartilhado o governo com a centro-direita que o apoiou em 2022 e investido na pacificação nacional que prometeu em campanha.
Até mesmo — exemplificou — com uma anistia, num grande pacto republicano, como fez a Itália comunista pelos fascistas após a Segunda Guerra.
Muito pelo contrário, acrescento, Lula entregou Ministérios periféricos ao centrão — à guisa de dizer que estava compartilhando o governo —, escondeu os centristas reais Geraldo Alckmin e Simone Tebet em pastas cemitério e atraiu figurões e extremistas do PT e da esquerda — Rui Costa, Gleisi Hoffman, Guilherme Boulos — para os postos chaves do palácio.
Refém da velha esquerda como nunca, foi cooptado pelo discurso anti-golpe, embarcou nos holofotes de Alexandre de Moraes e investiu na polarização — uma outra forma de se fechar na esquerda e achar que a maioria da população, conservadora, apoiava sua arenga.
Passou os últimos três anos e meio apostando na tese, aproximando-se mais do STF que essa maioria também rejeitava e insistindo no velho mote companheiro contra a maioria conservadora, o mercado, as elites — a Faria Lima como referência. O desfile da Unidos de Niterói na Sapucaí, este ano, completou o serviço.
Donde que os eleitores não sabem muito bem porque não querem mais Lula, mas é bem possível que carreguem no peito, atávico, o sentimento de que ele trouxe de volta o que foi rejeitado nacionalmente na eleição de 2018: o ódio visceral ao PT que embalou o foguete de Jair Bolsonaro e que ainda não se apagou com o petista no palácio. Muito pelo contrário, também.
Lula, tanto sabia disso, que azulou sua campanha em 2022, suspendeu o vermelho das roupas e das bandeiras, fez discurso com a bandeira nacional nas mãos. E até criticou banheiro misto para atrair a direita evangélica (com o perdão da redundância). Mais do que aceno, prometeu que governaria com a centro-direita, encarnada em Alckmin e Simone Tebet.
Mas virou à esquerda, logo no início do governo.
Imagino que desejasse mesmo um governo de frente ampla, porque é conciliador e gosta de empresários. Mas, no primeiro embate com o seu partido — dar a Tebet um Ministério de visibilidade, o do Desenvolvimento e Assistência Social, que controla o Bolsa Família —, arregou. E arregado ficou desde então.
É um governo de esquerda, claramente de esquerda, isolado na esquerda, com os problemas atuais de fortalecimento da direita aqui e no mundo todo.
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