Ao pedir a prisão de ministros e defender privatizações radicais, o governador de Minas ocupa o espaço antissistema que o filho do ex-presidente tenta polir.

Ao pedir a prisão de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, Romeu Zema assume a herança bolsonarista raiz com mais fôlego — e aparente autenticidade — do que o próprio filho candidato, seu concorrente em campanha.
Zema vem demonstrando, mais que Flávio, aquele DNA bolsonarista antissistema que não tem medo do que fala: condena o Bolsa Família, prega a privatização da Petrobras e do Banco do Brasil, defende o fim da CLT e a remoção de moradores de rua com caminhões. Evoca o Bolsonaro de 2018 falando sobre quilombolas.
Tudo o que Flávio Bolsonaro hoje evita em público. O senador tenta polir a imagem para não assustar o “centro democrático”, que as pesquisas mostram exausto de uma polarização vista como sinônimo de radicalismo.
(Não se peça a Flávio hoje que defenda o impeachment de ministros do Supremo. Ele não embarcou na CPI do Master, nem apertou o cerco contra Toffoli no Senado, mesmo no auge das denúncias envolvendo o magistrado.)
Zema joga com a vantagem de nunca ter ocupado cargos nacionais. Passa longe de Brasília — de onde ninguém sai ileso — e, por isso, ainda não foi cooptado. Ainda meio escondido por trás das monhanhas de Minas, ainda pode imprecar sem censura contra o mundo político e jurídico da capital onde todos parecem cúmplices.
É o mesmo figurino de Jair Bolsonaro em 2018, então um deputado do baixo clero a quem Zema deve sua chegada ao governo. Naquele ano, ele saltou de azarão para o Palácio da Liberdade, atropelando um clássico PSDB X PT entre Antônio Anastasia e Fernando Pimentel, que polarizavam as pesquisas até a última hora.
Embora fosse um empresário estranho à política, Zema mostrou *feeling*. Traiu o candidato de seu próprio partido, João Amoêdo, no meio dos debates finais ao perceber que a “onda Bolsonaro” estava órfã em Minas.
Resta saber se o governador não está errando nas datas, acreditando que o *feeling* de seis anos atrás ainda serve para o Brasil de hoje.
Parece não notar que o “modo bolsonarista” de 2018 pode, agora, ter apelo apenas em um nicho radical — um grupo com o qual nem Flávio Bolsonaro deseja parecer totalmente alinhado.
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